Missão (Im)possível? Recrutar e manter talentos na Farmácia

Durante muitos anos, recrutar para farmácia comunitária foi um processo relativamente simples. Publicava-se um anúncio, ativavam-se alguns contactos e, com maior ou menor dificuldade, os currículos iam chegando. Hoje, o cenário é bastante diferente. Em muitas farmácias, o problema já não está em escolher entre vários bons candidatos. Está, antes de mais, em conseguir que eles existam.

Perante esta realidade, insistir nas velhas fórmulas de recrutamento é pouco eficaz. A farmácia que quer continuar a atrair bons profissionais precisa de fazer mais do que publicar vagas. Precisa de se apresentar como um projeto credível, com organização, futuro e espaço para crescer. Porque o talento já não escolhe apenas um posto de trabalho. Escolhe contexto, liderança, desenvolvimento e qualidade de vida.

As farmácias mais consistentes trabalham a atração de talento de forma contínua: mantêm relação com estagiários, criam proximidade com faculdades, acompanham profissionais interessantes e cultivam uma reputação positiva junto do mercado.

Mas isso, por si só, não chega. O candidato quer perceber com clareza para onde vai. Quer saber o que vai fazer, com quem vai trabalhar, como são os horários, que autonomia terá, como é a liderança e, sobretudo, se existe futuro. Um anúncio vago, cheio de expressões gastas como “equipa dinâmica” e “possibilidade de crescimento”, dificilmente convence alguém que já conhece o setor.

É precisamente aqui que entram os planos de carreira, tema durante demasiado tempo negligenciado em muitas farmácias. Fala-se de crescimento, mas raramente se mostra como esse crescimento pode acontecer. Ora, um plano de carreira não tem de ser burocrático nem excessivamente sofisticado. Basta que seja claro, coerente e realista. Deve ajudar cada profissional a perceber onde está, o que pode desenvolver, que funções poderá assumir no futuro e quais os critérios de evolução.

Nem todos os elementos da equipa vão querer o mesmo percurso. Uns poderão aspirar a cargos de responsabilidade elevada, outros poderão querer aprofundar serviços farmacêuticos, vacinação, gestão de categorias, formação interna, coordenação de equipa, marketing, indicadores ou desenvolvimento comercial. O erro está em assumir que toda a progressão tem de conduzir ao mesmo lugar. Quando a farmácia cria percursos diferenciados, torna-se mais atrativa e, ao mesmo tempo, mais inteligente a reter perfis distintos.

Os relatórios recentes sobre talento e aprendizagem continuam a mostrar que a evolução profissional é um dos fatores mais relevantes para engagement, adaptação e retenção. Na prática, isto significa que a farmácia que não oferece horizonte tende a perder pessoas para contextos que, mesmo não sendo perfeitos, oferecem perspetiva.

No entanto, recrutar bem e ter uma proposta interessante não basta. É preciso saber integrar. E aqui surge um dos pontos mais importantes, o induction planning. Há ainda demasiadas situações em que um novo colaborador entra, recebe informação dispersa, aprende à medida da disponibilidade dos colegas e tenta adaptar-se quase por osmose.

Cada novo elemento deveria entrar com um plano de integração estruturado para os primeiros 30, 60 e 90 dias. Esse plano deve incluir os conteúdos a aprender, os processos críticos a dominar, os standards de atendimento, os sistemas a conhecer, as pessoas de referência e os momentos formais de acompanhamento. A integração não pode ficar dependente apenas da disponibilidade ocasional da equipa.

O onboarding também não deve ser apenas operacional. Não basta mostrar como funciona o sistema, onde estão os produtos ou quais as rotinas do dia. É essencial transmitir a cultura da farmácia, a forma de trabalhar, o nível de exigência, a postura perante o cliente e aquilo que verdadeiramente distingue aquela equipa. Integrar alguém é dar-lhe contexto para ter sucesso mais depressa.

Um modelo simples pode fazer uma diferença enorme: nomear um buddy de integração, realizar check-ins regulares na primeira semana e marcar pontos formais ao fim de 15, 30 e 60 dias. A evidência disponível mostra-nos que uma boa integração aumenta a permanência e melhora a experiência inicial dos colaboradores.

E por último, o assunto mais delicado de todos, as condições oferecidas. Salário, previsibilidade de horários, equilíbrio com a vida pessoal, prémios e outras benesses continuam a ter peso real na decisão de ficar ou sair.

Ainda assim, a retenção mais robusta nasce do conjunto. Uma remuneração justa é importante, mas ganha outra força quando vem acompanhada por formação, reconhecimento, autonomia, participação em projetos e liderança próxima.

Por isso, faz cada vez mais sentido criar momentos formais de conversa individual. Avaliação de desempenho, revisão de objetivos, feedback estruturado e até pequenas reuniões podem ajudar a perceber, antes que seja tarde, o que está a correr bem e o que pode conduzir a uma saída.

Também o reconhecimento tem um papel importante. Quando é específico, credível e ligado ao contributo real, deixa de ser um gesto simpático e passa a ser um instrumento de gestão. Os estudos mais recentes continuam a associar reconhecimento consistente a melhores níveis de retenção. O mercado mudou, as expectativas dos profissionais também, e as farmácias terão de responder com mais intenção e menos improviso. Mas isso não torna a missão impossível.